O paradoxo da torcida organizada: por que apoiar um governo não me torna cego

Dias atrás, abri a caixa de entrada do blog e me deparei com a seguinte mensagem de um leitor: “Não estou te entendendo. Você não é de esquerda? Seus posts parecem mais críticos do que apoiadores”.

Respirei fundo. Sorri. Ali estava, sintetizado em duas frases, o grande mal do debate político contemporâneo: a transformação da ideologia em torcida organizada.

O comentário dele partia de uma premissa clara: se você veste a camisa do time, você deve aplaudir o gol, o cartão vermelho, a contratação errada e até o frango do goleiro. Para esse leitor, a política não é um campo de disputa social complexo. É um Fla-Flu. E se eu critico as concessões que o governo que apoiei está fazendo no mandato, eu virei a casaca.
Eu gostaria muito de concordar com essa visão romântica. Aliás, eu concordaria plenamente com ela... Se o mundo em que vivemos fosse o País das Maravilhas, onde as decisões são movidas por pureza moral e fadas madrinhas, e não por negociações brutas de orçamento e governabilidade.
Como não vivo com a Alice, preciso recorrer a dois pensadores que entenderam perfeitamente essa armadilha: Karl Marx e Antonio Gramsci.
O "Fetiche do Rótulo" e a Realidade Material
Karl Marx explicou um conceito chamado "fetichismo da mercadoria", que ocorre quando as pessoas esquecem o trabalho real por trás de um produto e passam a adorar o objeto em si. Na política moderna, criamos o fetiche do rótulo.
A palavra “Esquerda” virou um produto de prateleira. O leitor compra o pacote fechado e acha que o boleto inclui a obrigação de passar pano para toda e qualquer aliança espúria ou política econômica contraditória que o governo adote.
Só que o método de Marx  (o materialismo histórico) nos ensina o oposto. Nós olhamos para a realidade material concreta, não para as etiquetas. Se um governo de esquerda adota uma política de concessão que sufoca a classe trabalhadora para agradar o mercado, o meu papel como cidadão (e escritor) é apontar a contradição. Apoiar um projeto político não é assinar uma procuração em branco; é exercer a práxis, que é a teoria moldada pela crítica e pela prática real. Silenciar diante do erro em nome de um "apoio cego" não é militância. É alienação.
O Senso Comum contra o Bom Senso
É aqui que Antonio Gramsci entra no circuito para explicar a mente do meu leitor. Gramsci separava a nossa consciência em duas gavetas: o senso comum e o bom senso.
O senso comum não é o que é lógico; é o pensamento fragmentado que absorvemos passivamente da sociedade, da mídia e, hoje, dos algoritmos das redes sociais. É o senso comum que dita o binarismo tacanho: "Se critica o meu político de estimação, então é do contra". É a incapacidade cognitiva de lidar com a nuance.
Já o bom senso é o início do pensamento crítico. É entender que um governo opera dentro de uma estrutura burguesa e capitalista esmagadora. Ele vai ceder. Ele vai errar. Ele vai negociar com quem não deve para aprovar o que precisa. O bom senso nos permite apoiar as diretrizes gerais de um campo progressista e, na linha seguinte, descer a lenha em uma concessão covarde.
Codificar é diferente de mitificar
Eu sei que cada um interpreta o que lê a partir da sua própria bagagem. Codificar uma mensagem é diferente de como o outro vai decifrá-la. Mas o xis da questão aqui não é um mal-entendido linguístico. É a falta de senso crítico crônica.
Ter viés de esquerda não significa usar vendas nos olhos. Significa ter ferramentas mais afiadas para enxergar o sistema que nos cerca. Se o preço para ser considerado "apoiador" é a cegueira deliberada e o aplauso automático, sinto informar: meu estoque de pano para passar acabou faz tempo.
Continuarei escrevendo, elogiando o que avança e criticando o que retrocede. Quem quiser o roteiro previsível da lisonja partidária, sugiro buscar a assessoria de imprensa do palácio. Aqui, a gente prefere a realidade material da calçada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desenrola Brasil: Alívio necessário ou remédio paliativo? Uma análise sobre o destrave da economia

Além do relógio: O fim da escala 6x1 como o próximo salto civilizatório do Brasil

Ciência sob ataque: A rigidez da Anvisa e o fenômeno Ypê em 2026